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Feridas invisíveis


Feridas emocionais da infância se manifestam na vida adulta como desconfiança, silêncio, culpa por existir e medo de depender, mas a cura surge com presença constante e acolhedora.


Trabalhamos por anos como líder de crianças, adolescentes e jovens, atendemos inúmeras pessoas em gabinetes pastorais e testemunhamos, de perto, as marcas profundas deixadas por feridas emocionais da infância. 

Diante disso, reunimos sabedoria prática, empatia e fé para oferecer conselhos que ajudam a reconstruir a confiança, restaurar a identidade e ressignificar o passado, porque ninguém está condenado a repetir a dor que um dia lhe foi imposta.


Muitas das reações que temos hoje em relacionamentos, decisões e até no modo como nos vemos não surgem do nada. Elas são ecos de uma infância em que o mundo parecia instável, imprevisível ou hostil. 

Quando uma criança é ferida emocionalmente, seja por negligência, crítica constante, abandono afetivo ou ambientes caóticos, seu sistema nervoso aprende a sobreviver, não a florescer. E essa lição permanece, mesmo quando já somos adultos com mais recursos e segurança.


Um dos sinais mais sutis, mas profundos, é a resistência em pedir ajuda. Há pessoas que carregam o mundo nas costas, não por força, mas por medo. 

Aprendem cedo que depender era arriscado: ou eram ignoradas, ou usadas, ou punidas por demonstrar necessidade. Assim, preferem o peso do sofrimento solitário à vulnerabilidade de estender a mão.


Outro reflexo comum é a desconfiança imediata diante da aproximação alheia. O corpo dispara antes que a mente tenha tempo de raciocinar. Isso não é exagero, é memória corporal. 

Em algum momento do passado, abrir-se foi sinônimo de dor. Hoje, qualquer gesto de proximidade pode ser lido como ameaça, mesmo que venha envolto em cuidado.


Há também quem se sinta culpado simplesmente por existir com plenitude. Se, na infância, sua alegria foi vista como inconveniente ou sua presença, um incômodo, você pode ter internalizado a ideia de que ocupar espaço é errado. Brilhar, então, vira perigo. A autolimitação passa a ser uma forma de autopreservação.


Essa confusão entre afeto e perigo é recorrente. Quando o amor veio acompanhado de controle, humilhação ou inconsistência, o cérebro aprende a se defender até das coisas boas. Um elogio pode gerar ansiedade, um abraço, desconforto. Não por ingratidão, mas por trauma.


Muitos ainda guardam silêncios ensurdecedores. Falar, em algum momento, trouxe julgamento, punição ou indiferença. Então, calar-se torna-se hábito, mesmo quando tudo dentro grita por ser ouvido. A voz se apaga não por ausência de conteúdo, mas por medo de consequências.


Relacionamentos frequentemente viram campos de teste. A pessoa provoca, se afasta, exige provas constantes, não por manipulação, mas por uma necessidade inconsciente de saber: “Você vai ficar, mesmo assim?” É uma tentativa de controlar o abandono revivendo-o sob suas próprias regras.


Além disso, há quem só se mostre depois de receber aprovação prévia. Molda-se ao desejo alheio porque, um dia, isso foi essencial para ser aceito. A verdadeira identidade fica escondida atrás de máscaras de adaptação.


Estar próximo sem tensão é algo raro para essas pessoas. Relaxar na presença do outro exige um tipo de segurança que talvez nunca tenham vivido, apenas sonhado.


Celebrar conquistas também pode parecer estranho. O sucesso traz insegurança, como se fosse uma armadilha prestes a fechar. A voz interna insiste: “Isso não é para você” ou “Logo tudo desmorona”.


Mas há esperança. A cura começa quando alguém oferece presença constante, não discursos vazios, mas consistência. É nesse solo seguro que a criança interior finalmente respira e o adulto aprende que, agora, é possível confiar, pedir, brilhar e, acima de tudo, existir sem culpa.


Apesar das feridas profundas deixadas por relacionamentos frágeis, ausências dolorosas ou amores ambíguos na infância, há um lugar onde a alma encontra repouso verdadeiro: nos braços de Deus. Nele, não é preciso provar valor, testar lealdade ou esconder a dor. 


Sua presença não exige desempenho, apenas acolhe. É ali que o coração aprende, muitas vezes pela primeira vez, o que é ser amado incondicionalmente, mantido na fraqueza e visto em sua totalidade. Nesse abraço eterno, até as partes mais assustadas dentro de nós podem suspirar: “Estou seguro”.


A Palavra de Deus confirma essa promessa com ternura. Em Isaías 40,11, lemos: “Ele apascentará o seu rebanho como pastor; ele ajuntará os cordeirinhos em seus braços e os levará ao colo; ele guiará suavemente as que amamentam”. 


E Jesus, com voz compassiva, convida: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mateus 11,28). Não há cura mais profunda do que aquela que nasce da certeza de que, mesmo quando o mundo falhou, o Pai permanece, firme, fiel e pronto a restaurar tudo o que foi quebrado.


Lembre-se: Quem carrega em silêncio as dores da infância, só aprende a descansar quando encontra um coração que não exige prova para ficar.


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Por jornalista Márcio Batista
Foto: (jonathan_graham/pixabay) Reprodução / Divulgação


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