A camisa pesa - Mais News
Hoje é

A camisa pesa


A camisa pesa. E quem não entende isso não pode vestir o amarelo.


A derrota do Brasil para a Noruega por 2 a 1, neste domingo, pelas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, confirmou um dado histórico curioso: a seleção brasileira continua sem vencer os noruegueses em confrontos oficiais ou amistosos. 

Com dois gols de Erling Haaland, a Noruega garantiu uma classificação histórica às quartas de final e ampliou um retrospecto que já era favorável diante da Seleção Brasileira.


A eliminação do Brasil para a Noruega por 2 a 1 não pode ser tratada apenas como mais uma derrota. Ela representa um retrato fiel do momento vivido pela Seleção Brasileira nos últimos anos: uma equipe que, em muitos momentos, parece ter esquecido o verdadeiro significado de defender a camisa mais vitoriosa da história do futebol mundial.


Enquanto a Noruega entrou em campo organizada, disciplinada, intensa e determinada a escrever um capítulo histórico, o Brasil voltou a demonstrar dificuldades para transformar talento individual em espírito coletivo. O futebol continua sendo decidido por detalhes, mas existem fatores que nunca podem faltar: entrega, comprometimento e personalidade.


A seleção norueguesa não venceu apenas pela qualidade técnica. Venceu porque jogou cada lance como se fosse o último. Demonstrou preparo físico, concentração e organização tática durante praticamente toda a partida. Mesmo enfrentando uma seleção cinco vezes campeã do mundo, seus jogadores não se intimidaram. Acreditaram em seu plano de jogo e foram recompensados.


Não é a primeira vez que a Noruega surpreende o Brasil em Copas do Mundo. Em 1998, também venceu por 2 a 1 na fase de grupos. Agora, quase três décadas depois, repetiu o feito em um jogo eliminatório, consolidando uma escrita que mostra que tradição, por si só, não ganha partidas.


O torcedor brasileiro não está cansado apenas das derrotas. Está cansado da sensação de que falta algo que sempre foi a marca registrada da Seleção: raça.


As gerações de Pelé, Jairzinho, Rivellino, Tostão, Zico, Falcão, Romário, Bebeto, Ronaldo, Rivaldo, Cafu, Roberto Carlos, Kaká e tantos outros deixaram um legado que ia muito além do talento. Eles entendiam que vestir a camisa verde e amarela era representar mais de duzentos milhões de brasileiros. Cada dividida era disputada como uma final. Cada bola perdida era motivo de indignação. Existia orgulho em defender o escudo da Seleção.


Hoje, boa parte da torcida sente falta exatamente desse comportamento. Não se trata de condenar comemorações ou momentos de descontração, que fazem parte do futebol. O incômodo surge quando a imagem transmitida passa a impressão de que a preocupação com coreografias, gestos para as redes sociais e outros elementos extracampo recebe mais atenção do que o desempenho dentro das quatro linhas.


O futebol brasileiro sempre encantou o mundo pela alegria, mas nunca deixou de ser competitivo. A irreverência era consequência das vitórias, e não substituta da dedicação. O sorriso vinha depois da luta.


A Noruega ofereceu uma importante lição nesta Copa. Sem possuir a tradição brasileira, apresentou organização, disciplina e comprometimento. Mostrou que coletividade supera estrelismo e que planejamento pode vencer o favoritismo.


Talvez tenha chegado a hora de o futebol brasileiro fazer uma profunda reflexão. A camisa da Seleção continua sendo uma das mais respeitadas do planeta, mas respeito precisa ser renovado a cada partida. Não basta carregar cinco estrelas no peito; é preciso honrá-las com atitude, responsabilidade e espírito de equipe.


O torcedor brasileiro continuará apoiando a Seleção. Sempre apoiou. Mas, em troca, espera enxergar dentro de campo jogadores que lutem até o último minuto, que demonstrem orgulho em representar o país e que compreendam que defender o Brasil é um privilégio reservado a poucos.


O talento brasileiro nunca deixou de existir. O que a torcida deseja é vê-lo acompanhado da mesma entrega, da mesma fome de vencer e da mesma responsabilidade que transformaram a Seleção Brasileira na maior campeã da história das Copas do Mundo.



Por jornalista Márcio Batista
Foto-montagem: (Sholdesigng / Diego Altman) Reprodução / Divulgação



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