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De onde vem o Whey?


O que antes era tratado como resíduo da produção de queijo agora movimenta bilhões, atrai investimentos e revela a dependência brasileira de proteínas importadas.


O mercado brasileiro de laticínios passa por uma transformação impulsionada pela crescente procura por whey protein, suplemento proteico produzido a partir do soro do leite. O ingrediente, tradicionalmente associado ao aproveitamento industrial da fabricação de queijos, ganhou importância econômica e passou a despertar o interesse de grandes empresas. Com a valorização da matéria prima e a expansão do consumo de proteínas, a indústria nacional intensifica investimentos para ampliar sua capacidade de processamento e atender à demanda.


A mudança é expressiva. Segundo dados atribuídos à Embrapa, a fabricação de um quilo de queijo gera aproximadamente nove litros de soro. Durante muito tempo, esse subproduto representou um desafio para os laticínios, principalmente pelos custos de aproveitamento e pelas questões ambientais relacionadas ao descarte inadequado. Agora, o cenário é diferente. O soro tornou-se um recurso estratégico para a produção de ingredientes destinados à alimentação humana.


A valorização também aparece nos preços. Em setembro de 2026, o quilo do insumo utilizado na fabricação de whey protein alcançou cerca de R$ 180 no Brasil, registrando aumento de 24% em apenas três meses. No mercado internacional, o concentrado proteico do soro com 80% de proteína, conhecido como WPC80, apresentou uma elevação ainda mais significativa. O valor por tonelada passou de US$ 10 mil para US$ 28 mil, ampliando a pressão sobre os custos da cadeia produtiva.


Apesar das oportunidades, o Brasil ainda depende do mercado externo para abastecer parte importante desse segmento. Aproximadamente 70% do WPC80 e do WPI, proteína isolada do soro, consumidos no país vêm de importações. Essa dependência expõe fabricantes às oscilações internacionais de preços e reforça a necessidade de ampliar a produção nacional.


Nesse contexto, empresas do setor anunciaram investimentos expressivos. A Sooro Renner prevê aportes superiores a R$ 1 bilhão em Francisco Beltrão, no Paraná. A Piracanjuba também anunciou investimentos acima de R$ 500 milhões em São Jorge d'Oeste, no mesmo estado. Já a Tirolez avançou com o arrendamento de uma unidade industrial em Governador Valadares, Minas Gerais. As iniciativas demonstram o interesse em aumentar a capacidade de processamento do soro e fortalecer a oferta de ingredientes proteicos no mercado brasileiro.


A expansão acompanha uma mudança nos hábitos de consumo. A procura por proteínas deixou de se concentrar apenas entre frequentadores de academias e passou a alcançar consumidores interessados em envelhecimento saudável e estratégias de controle de peso. O crescimento desse público também está relacionado à popularização de medicamentos para emagrecimento, que ampliou a atenção à ingestão de proteínas.


Levantamento citado pelo setor indica que 77,8% das indústrias de laticínios investem ou planejam lançar linhas de produtos proteicos. Ao mesmo tempo, a disputa pelo soro começa a afetar outros segmentos. Com maior direcionamento para a nutrição humana, diminui a disponibilidade de determinados concentrados utilizados na fabricação de rações animais, pressionando a busca por alternativas, como ingredientes derivados da soja.


A nova realidade evidencia uma mudança estrutural na cadeia do leite. O soro deixou de ser apenas um subproduto e passou a representar uma oportunidade de negócios, inovação industrial e redução da dependência externa. O desafio será transformar os investimentos em capacidade produtiva suficiente para acompanhar a demanda e tornar o Brasil mais competitivo nesse mercado.



Por jornalista Márcio Batista
Foto: (magnific) Reprodução / Divulgação

 

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